quinta-feira, 29 de julho de 2010

Soufflé de Peixe de Minha Mãe Menininha

Hoje não escrevo um conto, mas outra memória doce de minha infância. Não fui capaz de criar personagens em torno da receita de soufflé de peixe, simplesmente porque há pratos que estão presos nas melhores recordações da minha infância a pessoas que me foram - são - muito queridas e já não estão comigo.


para ler ao som de (versão linda)
Bethânia, Caetano e Dona Canô cantam Oração da Mãe Menininha


por Ana Martins

Na época de minha mãe era uma receita inovadora e chique. Depois da revolução de Abril, as donas de casa em Portugal saiam um pouco fora dos cozinhados habituais de suas mães, tias e avós e inovavam com receitas importadas. Muito moderno! Um mundo novo esperava-nos e a minha mãe, que só cozinhava ao fim-de-semana, gostava de inovar!
Um prato que abraçou foi o soufflé. De origem na culinária francesa (que significa inchado ou soprado) e que amiúde nos reunia, à minha irmã e a mim como suas ajudantes. Era um momento sempre bom, o de cozinharmos juntas, de ficar na memória a guerra prazeirosa e eterna de quem rapava a taça de massa de bolo cru. Ainda hoje quando cozinho prefiro esse momento e o de encetar um bolo quente saído do forno que o de festa propriamente assim considerado. Nota mental para perguntar a minha irmã se também pensa assim. Quem sabe, se nossa mãe não tivesse morrido tão nova, as minhas memórias poderiam ter crescido.
Tenho os dias de soufflé em boa conta, eram refeições de festa! Apesar de fazer de variados sabores, o de peixe era o meu preferido. Talvez por ser a única forma de conseguir comer peixe a saber a bolo. Já mãe, consegui que o meu filho pedisse com vontade bolo (de peixe) à refeição, porque é esse o segredo do soufflé: o aspecto fofo e volumoso que dá água na boca. Consiste apenas na forma adequada de bater os ovos – as gemas bem batidas adicionadas uma a uma e no final quando se acrescenta as claras em castelo bem firme. Um bom truque é acrescentar uma pitada de sal fino às claras que ajuda a ficarem no ponto.
Complicado? Não, basta saber fazer um bom molho Bechamel (manteiga, farinha e leite) adicionar o peixe cozido bem desfiado e os ovos, como disse, gemas uma a uma e as claras em castelo. 20 minutos de forno a 200 graus numa forma redonda e alta bem untada e enfarinhada. Servir logo de seguida com salada verde. Ter cuidado com possíveis correntes de ar. O soufflé irá baixar naturalmente (por isso a imposição de o servir logo), mas se apanhar ar, murcha de forma tristonha.


Ingredientes:


200 grs de peixe branco cozido e desfiado
50 grs de manteiga
50 grs de farinha
1 chávena de leite
4 ovos
Sal, pimenta, noz moscada e sumo de limão q.b.





sábado, 24 de julho de 2010

Miss Imperfeita

Hoje coloco um texto de uma colega escritora que muito gosto.
E depois uma receita simples. Bem simples.




para ler ao som de

Resistência (ao vivo) - A Noite

Miss Imperfeita

por Martha Medeiros - Jornalista e Escritora

«Eu não sirvo de exemplo para nada, mas, se você quer saber se isso é possível, me ofereço como piloto de testes. Sou a Miss Imperfeita, muito prazer. A imperfeita que faz tudo o que precisa fazer, como boa profissional, mãe, filha e mulher que também sou: trabalho todos os dias, ganho minha grana, vou ao supermercado, decido o cardápio das refeições, cuido dos filhos, marido (se tiver), telefono sempre para minha mãe, procuro minhas amigas, namoro, viajo, vou ao cinema, pago minhas contas, respondo a toneladas de e-mails, faço revisões no dentista, mamografia, caminho meia hora diariamente, compro flores para casa, providencio os consertos domésticos e ainda faço as unhas e depilação!

E, entre uma coisa e outra, leio livros.

Portanto, sou ocupada, mas não uma workholic.

Por mais disciplinada e responsável que eu seja, aprendi duas coisinhas que operam milagres.

Primeiro: a dizer NÃO.

Segundo: a não sentir um pingo de culpa por dizer NÃO. Culpa por nada, aliás.

Existe a Coca Zero, o Fome Zero, o Recruta Zero. Pois inclua na sua lista a Culpa Zero.

Quando você nasceu, nenhum profeta adentrou a sala da maternidade e lhe apontou o dedo dizendo que a partir daquele momento você seria modelo para os outros.

Seu pai e sua mãe, acredite, não tiveram essa expectativa: tudo o que desejaram é que você não chorasse muito durante as madrugadas e mamasse direitinho.

Você não é Nossa Senhora.

Você é, humildemente, uma mulher.

E, se não aprender a delegar, a priorizar e a se divertir, bye-bye vida interessante. Porque vida interessante não é ter a agenda lotada, não é ser sempre politicamente correta, não é topar qualquer projeto por dinheiro, não é atender a todos e criar para si a falsa impressão de ser indispensável. É ter tempo.

Tempo para fazer nada.

Tempo para fazer tudo.

Tempo para dançar sozinha na sala.

Tempo para bisbilhotar uma loja de discos.

Tempo para sumir dois dias com seu amor.

Três dias…

Cinco dias!

Tempo para uma massagem.

Tempo para ver a novela.

Tempo para receber aquela sua amiga que é consultora de produtos de beleza.

Tempo para fazer um trabalho voluntário.

Tempo para procurar um abajur novo para seu quarto.

Tempo para conhecer outras pessoas.

Voltar a estudar.

Para engravidar.

Tempo para escrever um livro que você nem sabe se um dia será editado.

Tempo, principalmente, para descobrir que você pode ser perfeitamente organizada e profissional sem deixar de existir.
Porque nossa existência não é contabilizada por um relógio de ponto ou pela quantidade de memorandos virtuais que atolam nossa caixa postal.

Existir, a que será que se destina?

Destina-se a ter o tempo a favor, e não contra.

A mulher moderna anda muito antiga. Acredita que, se não for super, se não for mega, se não for uma executiva ISO 9000, não será bem avaliada. Está tentando provar não-sei-o-quê para não-sei-quem.

Precisa respeitar o mosaico de si mesma, privilegiar cada pedacinho de si.

Se o trabalho é um pedação de sua vida, ótimo!

Nada é mais elegante, charmoso e inteligente do que ser independente.
Mulher que se sustenta fica muito mais sexy e muito mais livre para ir e vir. Desde que lembre de separar alguns bons momentos da semana para usufruir essa independência, senão é escravidão, a mesma que nos mantinha trancafiadas em casa, espiando a vida pela janela.

Desacelerar tem um custo. Talvez seja preciso esquecer a bolsa Prada, o hotel decorado pelo Philippe Starck e o baton da M.A.C.
Mas, se você precisa vender a alma ao diabo para ter tudo isso, francamente, está precisando rever seus valores.

E descobrir que uma bolsa de palha, uma pousadinha rústica à beira-mar e o rosto lavado (ok, esqueça o rosto lavado) podem ser prazeres cinco estrelas e nos dar uma nova perspectiva sobre o que é, afinal, uma vida interessante.»

Uma receita simples

Acontece-me frequentemente perder a hora se estou a ler ou a escrever. Uma refeição usual quando não se tem vontade ou tempo de cozinhar é comprar frango de churrasco. É acessível, rápido, saboroso e até indicado para quem esteja de dieta (sem a pele estaladiça, bem entendido).
Créditos da foto é do Blog Amigo Cozinha da Risonha)

Em Portugal existe uma receita bastante simples e popular (de nome bastante homófobo) por se introduzir um limão e um caldo knorr na extremidade do frango - e é apenas isso que se faz.
Há algumas variantes, uma vez que as pessoas gostam de improvisar e esta receita já é antiga, por vezes encontra-se o exterior esfregado com alho esmagado, margarina e colorau, mas o limão é o requisito necessário que dá o toque de diferente para assar este frango no forno.